Wi-Fi & Segurança · análise
Antenas clandestinas exploram falha do 2G para aplicar golpes por SMS em grandes cidades
Equipamentos ilegais simulam redes móveis antigas para enganar celulares e disparar milhares de mensagens fraudulentas. Empresas e órgãos públicos enfrentam novo vetor de risco digital.

Uma nova modalidade de fraude digital está em ascensão no Brasil: antenas clandestinas, conhecidas como ERBs falsas, estão sendo usadas para criar redes móveis simuladas e aplicar golpes por SMS. Segundo reportagem do Olhar Digital, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) já apreendeu 11 desses equipamentos em São Paulo e no Rio de Janeiro desde 2025, e há indícios de que a prática se espalha por outras cidades do país. O alvo dos criminosos são celulares de qualquer perfil, incluindo dispositivos corporativos, que acabam expostos a mensagens fraudulentas e tentativas de invasão.

Como funcionam as ERBs falsas e por que o 2G é o elo fraco
O golpe se aproveita de uma vulnerabilidade conhecida da tecnologia 2G, padrão de comunicação móvel lançado nos anos 1990. Ao contrário das redes mais recentes, como 4G e 5G, o 2G não exige autenticação mútua entre o aparelho e a rede. Isso significa que o dispositivo pode ser enganado a se conectar a uma antena falsa sem perceber que está fora da infraestrutura da operadora legítima.
De acordo com o Olhar Digital, os criminosos usam equipamentos sofisticados, que podem custar mais de R$ 100 mil, para simular uma estação rádio-base (ERB), forçando celulares próximos a trocar de conexão e migrar para o 2G controlado pelo fraudador. O professor Daniel Nunes, do Instituto Nacional de Telecomunicações, detalhou ao portal g1 que “nas gerações modernas, como 4G para cima, há uma autenticação de mão dupla: a rede autentica o dispositivo, e o dispositivo autentica a rede. No caso do 2G, a rede autentica o dispositivo, mas o dispositivo não autentica a rede”.
Essa brecha permite que a ERB falsa envie até 100 mil mensagens por dia em um raio de aproximadamente dois quilômetros, segundo dados da Anatel citados pelo Olhar Digital. As mensagens geralmente apresentam conteúdos como ofertas falsas de crédito, supostos ganhos em apostas, confirmações de compras inexistentes e pedidos para instalação de aplicativos.
Estrutura dos golpes: tecnologia, logística e perfil dos criminosos
O funcionamento das ERBs clandestinas envolve uma estrutura relativamente portátil, composta por uma antena, uma caixa transmissora e um notebook com software especializado no envio massivo de SMS. Conforme apuração do Olhar Digital, esses equipamentos são frequentemente instalados em apartamentos de andares altos, localizados em áreas de grande circulação, para maximizar o alcance. Em um caso investigado, uma antena foi montada em um veículo e usada para disseminar mensagens em vias congestionadas de São Paulo.
Gesiléa Teles, superintendente de Fiscalização da Anatel, afirmou ao g1 que “há criminosos especializados e com poder financeiro para comprar esse tipo de equipamento e treinar quem vai operá-lo”. O valor elevado dos dispositivos e a complexidade da operação indicam que o crime é organizado e envolve profissionais com conhecimento técnico.

A Anatel relata que a identificação dessas antenas geralmente parte de denúncias das próprias operadoras, que notam interferências anômalas no sinal. Técnicos da agência utilizam analisadores de espectro para rastrear a origem da transmissão clandestina. A operação é considerada crime no Brasil, com pena prevista de dois a quatro anos de detenção, além de multa de R$ 10 mil, podendo ser agravada caso haja prejuízo a terceiros.
Impacto para empresas e órgãos públicos: riscos ampliados e vetores de ataque
Embora o golpe atinja principalmente usuários comuns, a ameaça se estende de forma preocupante ao ambiente corporativo e ao setor público. Dispositivos móveis de empresas, gestores, equipes de campo e até equipamentos de missão crítica podem ser forçados a migrar para o 2G, tornando-se alvos de mensagens fraudulentas e potenciais tentativas de invasão via links maliciosos ou aplicativos falsos.
O Olhar Digital destaca que, ao explorar uma falha estrutural do 2G, os criminosos conseguem burlar camadas tradicionais de proteção baseadas em autenticação de rede. Isso pode permitir desde o roubo de credenciais até o comprometimento de sistemas internos, caso funcionários sejam induzidos a instalar aplicativos ou fornecer dados sensíveis. Para organizações que dependem de mobilidade, como empresas de logística, saúde, segurança e órgãos públicos, o risco é multiplicado pela dificuldade de monitorar milhares de dispositivos em campo.
Além disso, a possibilidade de ataques em áreas de grande circulação, como centros comerciais, polos industriais e regiões administrativas, amplia a superfície de exposição. A própria Anatel reconhece indícios de que o problema não está restrito a São Paulo e Rio de Janeiro, sugerindo que cidades como Manaus, com forte atividade empresarial e circulação intensa, também podem ser potenciais alvos.
Medidas de mitigação: o que pode ser feito na prática

Especialistas ouvidos pelo Olhar Digital recomendam algumas ações para reduzir a exposição ao golpe. A principal delas é desativar o suporte à rede 2G nos dispositivos, sempre que possível. No Android, a opção pode ser encontrada em Configurações > Conexões > Redes móveis, desativando “Permitir serviço 2G”. No iPhone, o Modo de Isolamento oferece proteção adicional, embora limite algumas funcionalidades.
Outra orientação é manter sistemas operacionais e aplicativos sempre atualizados, além de reforçar treinamentos internos para evitar que colaboradores cliquem em links ou instalem aplicativos recebidos por SMS suspeitos. O monitoramento de tráfego anômalo e a criação de políticas de uso seguro de dispositivos móveis também são estratégias recomendadas para empresas e órgãos públicos.
Vale ressaltar que, por se tratar de uma vulnerabilidade inerente ao padrão 2G, não existe solução definitiva do lado do usuário ou da empresa. A atuação das autoridades, como Anatel e Polícia Civil, permanece essencial para identificar e desmantelar as redes clandestinas. No entanto, a responsabilidade de gestores de TI e segurança cresce diante da necessidade de mitigar riscos em dispositivos corporativos, especialmente em regiões de maior circulação e conectividade.
Implicações para a infraestrutura digital e decisões de conectividade empresarial
O avanço desse tipo de fraude reforça a importância de decisões criteriosas sobre infraestrutura de conectividade em empresas e órgãos públicos. A dependência de redes móveis antigas, mesmo que residual, representa um vetor de risco crescente, principalmente em ambientes que exigem disponibilidade, segurança e confiabilidade de comunicação.
Para organizações localizadas em polos industriais ou regiões de grande movimentação, como Manaus, o episódio serve de alerta para a necessidade de avaliar a exposição a tecnologias legadas e adotar soluções que priorizem redes mais seguras, com autenticação robusta e controle de acesso. A escolha de provedores que ofereçam infraestrutura dedicada, monitoramento constante e suporte técnico local pode fazer diferença na resiliência contra ataques que exploram brechas estruturais do ecossistema móvel.
Em resumo, a proliferação de ERBs falsas evidencia não apenas a criatividade dos cibercriminosos, mas também a urgência de revisar políticas de mobilidade corporativa, atualizar dispositivos e investir em conectividade que minimize dependências de padrões inseguros. O cenário exige vigilância constante e decisões técnicas alinhadas ao contexto de risco de cada organização.

O surgimento e a disseminação das antenas clandestinas que exploram falhas do 2G para aplicar golpes por SMS mostram que a segurança digital corporativa não depende só de software ou treinamento, mas também da arquitetura da rede e da escolha de tecnologias conectivas. Para empresas e órgãos públicos em regiões estratégicas, como Manaus, a revisão da exposição a padrões antigos e a busca por infraestrutura dedicada e monitorada são passos fundamentais para mitigar riscos e preservar a integridade das operações.
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