IA · análise
Construtivo migra de hyperscaler para nuvem brasileira diante de riscos cambiais e geopolíticos
Empresa de SaaS para engenharia troca provedor global por Magalu Cloud para reduzir exposição ao dólar e incertezas tarifárias. Mudança trouxe economia de até 40% e ganhos operacionais, segundo executivo.

O movimento de empresas brasileiras para provedores de nuvem nacionais ganhou novo capítulo com a decisão da Construtivo, especializada em soluções SaaS para o setor de engenharia, de migrar sua infraestrutura de um hyperscaler estrangeiro para a Magalu Cloud, plataforma pública do grupo Magalu. A motivação central, segundo reportagem do IT Forum, foi a necessidade de mitigar riscos cambiais e tarifários, além de buscar maior alinhamento estratégico diante de incertezas geopolíticas.

Risco cambial e tarifas: o que motivou a migração
De acordo com Marcus Granadeiro, sócio-diretor da Construtivo, a exposição ao dólar representava um risco relevante, já que a empresa vende seus contratos em reais, mas arcava com custos de nuvem indexados à moeda americana. Essa dinâmica tornou-se ainda mais sensível diante das tensões tarifárias entre Brasil e Estados Unidos, cenário em que a possibilidade de novas taxações sobre empresas americanas poderia elevar significativamente os custos operacionais.
Granadeiro relatou ao IT Forum que a decisão não decorreu de falhas técnicas do provedor anterior, mas de uma análise de risco cambial e de potenciais impactos de políticas de reciprocidade tarifária. A preocupação era que qualquer mudança regulatória poderia comprometer a previsibilidade financeira do negócio, especialmente em um setor onde a infraestrutura de nuvem é insumo crítico.
O caso ilustra uma tendência crescente de empresas brasileiras que buscam maior controle sobre custos e exposição a fatores externos, especialmente em segmentos que dependem fortemente de tecnologia e serviços digitais. A volatilidade do câmbio e a possibilidade de sanções ou barreiras comerciais têm levado organizações a reavaliar contratos com fornecedores globais, optando por alternativas nacionais para garantir maior estabilidade.
Desempenho e economia: resultados da transição
Embora o fator econômico não tenha sido o principal motivador inicial, a migração para a Magalu Cloud resultou em uma redução de custos entre 30% e 40%, segundo Granadeiro. Esse ganho foi atribuído tanto à eliminação da indexação cambial quanto à infraestrutura mais recente oferecida pelo novo provedor, que não carrega sistemas legados comuns em players globais estabelecidos.
Outro ponto destacado foi o ganho de desempenho, especialmente em operações que demandam alto volume de leitura e gravação de dados, como é o caso da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), cliente da Construtivo. O executivo relatou que, antes da migração, havia a perspectiva de dividir o servidor da CSN em duas partes para preservar o desempenho, o que exigiria meses de trabalho de refatoração. Com a infraestrutura da Magalu Cloud, essa necessidade foi eliminada, e Granadeiro estimou um aumento de velocidade entre cinco e dez vezes em relação ao ambiente anterior.
O processo de transição também contou com incentivos do novo provedor, como meses de carência para cobrir os custos de retirada de dados do hyperscaler anterior, um fator que costuma encarecer trocas de nuvem. No entanto, a migração não esteve isenta de desafios: a ausência inicial de recursos como logon único (SSO) exigiu a configuração de redes privadas virtuais (VPN) para acesso dos clientes, lacunas que foram sendo solucionadas à medida que a oferta amadureceu.

Atendimento técnico e alinhamento de infraestrutura
Além dos aspectos financeiros e operacionais, o atendimento técnico foi apontado como diferencial na escolha da Magalu Cloud. Enquanto provedores globais concentram o suporte em sistemas de chamados, a experiência relatada pela Construtivo envolveu contato direto com a equipe técnica do provedor nacional, favorecendo maior agilidade e personalização no suporte.
Outro ponto de convergência citado por Granadeiro foi a priorização de software de código aberto tanto pela Construtivo quanto pela Magalu Cloud. Essa escolha reduziu a dependência de licenças internacionais, facilitou o alinhamento técnico entre as equipes e abriu espaço para projetos conjuntos, como iniciativas de recuperação de desastres (DR).
Apesar da hesitação inicial devido à menor variedade de produtos oferecidos pela Magalu Cloud em comparação aos hyperscalers, a evolução do portfólio e o suporte próximo foram determinantes para consolidar a decisão de migração. A experiência da Construtivo sugere que, para empresas que valorizam atendimento personalizado e flexibilidade técnica, provedores nacionais podem oferecer vantagens competitivas relevantes.
Soberania de dados e percepção de mercado
Um dos efeitos colaterais da migração foi o fortalecimento do argumento de soberania de dados, especialmente em mercados onde o controle sobre a localização e o processamento das informações é cada vez mais valorizado. Segundo Granadeiro, operar em uma nuvem 100% brasileira tornou-se um diferencial competitivo da Construtivo frente a concorrentes estrangeiros no segmento de gestão de engenharia e BIM (modelagem de informação da construção).
Apesar disso, o executivo pondera que a soberania de dados ainda não é critério decisivo para a maioria dos clientes, embora a percepção esteja em transformação, principalmente entre empresas públicas e negócios ligados a infraestrutura estratégica. Ele compara esse amadurecimento ao processo pelo qual passou a segurança da informação, que levou cerca de cinco anos para se tornar exigência padrão em contratos corporativos.
Granadeiro avalia que o grau de exigência sobre soberania tende a variar conforme a criticidade do ativo envolvido. Ativos considerados estratégicos, como aeroportos, portos e pontes, devem impulsionar a demanda por soluções que garantam maior controle sobre onde e como os dados são processados. O contexto de tensões tecnológicas e geopolíticas internacionais pode acelerar essa tendência, levando empresas a diversificar seus provedores de nuvem por região ou alinhamento político, como forma de mitigar riscos sistêmicos.

Implicações para empresas e setor público: custo, risco e estratégia
Para gestores de TI, diretores financeiros e tomadores de decisão em empresas que operam no Brasil, a experiência da Construtivo traz lições relevantes sobre a relação entre infraestrutura digital e estratégia de negócios. A dependência de provedores globais pode expor organizações a riscos de volatilidade cambial, mudanças tarifárias e incertezas regulatórias, fatores que impactam diretamente o planejamento orçamentário e a previsibilidade de custos.
Além disso, a crescente valorização da soberania de dados e do controle sobre a infraestrutura digital pode se tornar fator de diferenciação em setores sensíveis, como construção civil, mineração, logística e operações críticas do setor público. Empresas que antecipam esse movimento e investem em soluções nacionais podem sair na frente em licitações e contratos que passem a exigir conformidade com requisitos de processamento local de dados.
No contexto do Polo Industrial de Manaus e de operações distribuídas pelo território nacional, a escolha por provedores de nuvem com infraestrutura local pode reduzir latência, melhorar o desempenho de aplicações críticas e garantir maior disponibilidade, elementos essenciais para a continuidade operacional em ambientes de alta demanda e dispersão geográfica.
O que ainda não se sabe e próximos passos
Embora o caso da Construtivo aponte ganhos claros de custo e desempenho, o cenário de migração para nuvens nacionais ainda apresenta desafios. A maturidade das ofertas, a variedade de serviços disponíveis e a capacidade de escalar para demandas complexas são pontos que variam entre os provedores brasileiros. Empresas interessadas em seguir caminho semelhante devem avaliar cuidadosamente os requisitos técnicos, o suporte oferecido e as condições contratuais, especialmente em relação à portabilidade e custos de saída.
Outro aspecto em aberto é o ritmo com que a soberania de dados se consolidará como exigência de mercado. O histórico recente sugere que pressões regulatórias e eventos geopolíticos podem acelerar essa transição, mas ainda não há consenso sobre quando e como isso se refletirá de forma ampla nos processos de contratação de nuvem no Brasil. Para organizações que operam ativos estratégicos ou participam de projetos públicos, monitorar esses movimentos será fundamental para antecipar riscos e oportunidades.
Em síntese, a migração da Construtivo para uma nuvem brasileira exemplifica como decisões de infraestrutura digital estão cada vez mais ligadas a fatores macroeconômicos, regulatórios e estratégicos. Para empresas que buscam previsibilidade de custos, alinhamento regulatório e desempenho local, a escolha do provedor de nuvem pode ser decisiva para a sustentabilidade do negócio.

O caso da Construtivo evidencia que, diante de riscos cambiais e incertezas geopolíticas, a infraestrutura de nuvem deixa de ser apenas uma questão técnica e passa a ser elemento central da estratégia de negócios, especialmente para quem precisa garantir desempenho, previsibilidade e conformidade em ambientes críticos e distribuídos.
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