IA · análise
IA brasileira reduz crimes violentos em 27% em Luziânia e desafia modelo tradicional de investigação policial
A adoção da IA Pax por forças policiais de Goiás e Paraná acelerou investigações e cortou índices criminais, mas impõe novas demandas de infraestrutura, privacidade e custódia de dados para o setor público.

O uso de inteligência artificial (IA) em operações policiais brasileiras está desafiando a crença de que tecnologia disruptiva é privilégio de grandes centros ou de países desenvolvidos. Segundo reportagem do TecMundo, a plataforma Pax, apelidada de “ChatGPT da Segurança”, proporcionou redução de 27% nos crimes violentos em Luziânia (GO) após seis meses de uso. O dado, atribuído à Secretaria de Segurança Pública de Goiás, não apenas contraria a expectativa de que inovação em segurança pública é lenta e cara, mas também expõe um novo patamar de exigência para a infraestrutura digital dos órgãos públicos.

Resultados concretos e alcance da IA Pax
De acordo com o TecMundo, a Pax foi implementada inicialmente em Goiás e, em menor escala, no Paraná. O sistema atua em casos de homicídio, latrocínio, roubo e furto, apoiando tanto investigações quanto patrulhamento e ocorrências em andamento. O subsecretário de Segurança Pública de Goiás, Gustavo Carlos Ferreira, afirma que a efetividade policial “praticamente dobrou nas unidades que operam com a plataforma”. Em Luziânia, o projeto-piloto resultou em uma queda de 27% nos índices de crimes violentos, enquanto mais de 2,2 mil casos foram solucionados no estado desde abril de 2025.
Nos municípios do Paraná, a Pax foi responsável pela resolução de mil casos, segundo a própria empresa. Embora o número seja menor, o CEO da Pax, David Peixoto, atribui isso ao estágio inicial da adoção local. O sistema já está presente em mais de 50 cidades entre Goiás e Paraná, mas a empresa não detalha a lista completa por razões estratégicas e de segurança.
Como funciona a tecnologia e o que muda para as operações
A Pax utiliza um modelo open-weight, ou seja, de código aberto, com componentes disponíveis para personalização. O sistema cruza dados de boletins de ocorrência, imagens de câmeras públicas e depoimentos, permitindo buscas semânticas e identificação visual detalhada, como cor, modelo e adesivos em veículos. A IA opera em modo conversacional, facilitando o uso por agentes de campo e acelerando investigações que antes exigiam horas de trabalho manual.
O CEO da Pax defende que a tecnologia “torna o trabalho da polícia 100 vezes mais rápido” e devolve a capacidade investigativa ao policial, permitindo atuação simultânea em múltiplos casos. Em um exemplo citado pelo TecMundo, a busca semântica por suspeitos de roubo em Aparecida de Goiânia resultou na prisão de dois indivíduos, graças à análise de imagens e cruzamento de informações sobre vestimentas e veículos.

Custos, escala e satisfação dos usuários
O custo anual da Pax para uma prefeitura como Luziânia é de cerca de R$ 1 milhão, segundo o CEO da empresa. Para efeito de comparação, o município destinou R$ 27 milhões à segurança pública em 2024. Ou seja, a IA representa menos de 4% do orçamento local para o setor. O Net Promoter Score (NPS), métrica de satisfação dos usuários, atingiu 92% entre as polícias que já utilizam a plataforma, de acordo com Peixoto.
Apesar do entusiasmo dos responsáveis pela Pax e da Secretaria de Segurança de Goiás, o TecMundo ressalta que não há um levantamento nacional consolidado sobre a resolução de crimes patrimoniais. No caso de homicídios dolosos, apenas 36% foram esclarecidos no Brasil em 2023, segundo o Instituto Sou da Paz. A expectativa é que a IA possa elevar esses índices, mas ainda faltam dados de longo prazo e avaliações independentes.
Privacidade, custódia de dados e desafios de infraestrutura
A adoção de IA em segurança pública traz à tona preocupações com privacidade e integridade dos dados. Segundo Peixoto, a Pax não armazena informações em servidores próprios: toda a operação ocorre em cloud do órgão de segurança, com acesso restrito a agentes oficiais e tráfego criptografado. Todas as ações são auditáveis, com registros mantidos por até cinco anos. Apenas 0,02% dos dados alimentados são acessados pelos policiais, o que, segundo a empresa, é resultado de camadas de proteção e autenticação.
O CEO explica que a IA não produz provas jurídicas, mas preserva a integridade do dado original por meio de hash (código único gerado a partir do arquivo), permitindo rastreabilidade e conferência matemática. A cadeia de custódia formal permanece sob responsabilidade dos órgãos de persecução penal, enquanto a tecnologia assegura que o dado chegue intacto ao processo.
No entanto, a expansão da IA para todas as unidades policiais, como planeja a Secretaria de Segurança de Goiás, depende de infraestrutura digital robusta: servidores em nuvem, conectividade estável e políticas claras de acesso e auditoria. Em regiões com limitações de banda larga ou instabilidade de rede, a eficácia do sistema pode ser comprometida, afetando tanto a velocidade de resposta quanto a segurança dos dados sensíveis.

O contra-argumento: riscos, limitações e o que ainda não se sabe
O TecMundo destaca que, embora os resultados preliminares sejam positivos, ainda não existe consenso nacional sobre o impacto da IA em segurança pública. Não há, por exemplo, avaliação independente sobre o efeito da Pax em diferentes contextos urbanos ou rurais, nem dados sobre possíveis vieses algorítmicos ou falhas de identificação. A própria empresa reconhece que não divulga todas as cidades atendidas por motivos estratégicos, o que limita a transparência e dificulta a comparação entre regiões.
Além disso, a dependência de infraestrutura digital levanta dúvidas sobre a viabilidade de expansão para municípios com orçamento restrito ou infraestrutura precária. O custo de R$ 1 milhão por ano pode ser viável para cidades médias, mas representa desafio para localidades menores. Por fim, a integração com sistemas legados de segurança pública e a capacitação de agentes para uso eficiente da IA são gargalos ainda pouco discutidos publicamente.
Implicações para gestores públicos e empresas de infraestrutura digital
Para gestores públicos e decisores de TI, a experiência de Goiás e Paraná com a Pax sinaliza uma mudança de paradigma: a capacidade de reduzir crimes e acelerar investigações depende cada vez mais de infraestrutura digital resiliente. A adoção de IA em segurança pública não é apenas uma questão de software, mas de garantir conectividade estável, servidores seguros e políticas de acesso rigorosas.
No contexto do Polo Industrial de Manaus e de cidades da Amazônia, onde desafios logísticos e de conectividade são conhecidos, a replicação de resultados como os de Luziânia exige planejamento específico. A latência da rede, a disponibilidade do acesso e a redundância de links tornam-se fatores críticos para o sucesso de projetos de IA em segurança pública. Além disso, a transparência nos processos de custódia de dados e a capacidade de auditar acessos são requisitos que extrapolam o debate tecnológico e impactam diretamente a confiança da sociedade nas instituições.

Em suma, a redução de 27% nos crimes violentos em Luziânia, atribuída à IA Pax, demonstra o potencial transformador da tecnologia, mas também escancara a necessidade de investimentos contínuos em infraestrutura digital. Para que a promessa de investigações mais rápidas e eficientes se concretize em larga escala, será preciso enfrentar limitações de conectividade, orçamento e capacitação técnica, desafios que não se resolvem apenas com algoritmos, mas com decisões estratégicas sobre a base tecnológica do setor público.
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