IA multiplica demanda energética e desafia infraestrutura dos data centers no Brasil

IA aumenta densidade e consumo de energia dos data centers, exigindo novas estratégias de infraestrutura e conectividade para empresas brasileiras.

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IA multiplica demanda energética e desafia infraestrutura dos data centers no Brasil

A adoção acelerada de inteligência artificial está elevando a densidade computacional e o consumo energético dos data centers, pressionando a capacidade de transmissão elétrica e exigindo novas soluções de refrigeração e conectividade.

por Atlas Upnetix Review Team · 21 de agosto, 2026 · 7 min de leitura
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A crença de que a infraestrutura de data centers brasileira está preparada para a próxima onda tecnológica está sendo posta à prova pelo avanço da inteligência artificial (IA). O que antes era um desafio de escala e eficiência agora se tornou uma corrida contra gargalos de energia, refrigeração e conectividade, com impactos diretos sobre custos, riscos operacionais e decisões de investimento para empresas de todos os portes.

Interior realista de data center brasileiro com racks de alta densidade funcionando
Data center brasileiro com alta densidade computacional, ilustrando o impacto da inteligência artificial na infraestrutura.

Densidade computacional atinge patamares inéditos

Segundo reportagem do Telesíntese, a demanda por IA está levando a densidade dos racks em data centers a níveis sem precedentes. Enquanto instalações convencionais operavam com racks de poucos quilowatts, projetos voltados à IA já consideram configurações de até 400 kW em um único rack, conforme apresentado por João Walter Silva, executivo da Ascenty, durante o evento Telco Transformation. O salto é tão expressivo que a empresa também recebe pedidos para salas com capacidade entre 10 MW e 20 MW, superando em múltiplos os 2 MW ou 3 MW anteriormente contratados para ambientes completos.

Esse aumento não é isolado. A Cirion, segundo Selio Italo, team leader de operações de data centers, prepara um data center de 100 MW no Rio de Janeiro, e há projeções do Ministério de Minas e Energia indicando que a capacidade instalada dos data centers brasileiros pode saltar de 700 MW em 2024 para 13 GW em 2035. O consenso entre os executivos ouvidos pelo Telesíntese é que a IA está redefinindo o padrão de consumo energético e de densidade computacional, exigindo mudanças radicais na infraestrutura.

Energia: o novo gargalo do crescimento

Apesar de o Brasil dispor de capacidade de geração elétrica, a transmissão e a disponibilidade de energia nos pontos de consumo tornaram-se o principal entrave para a expansão dos data centers. João Walter Silva, da Ascenty, e Selio Italo, da Cirion, convergem ao apontar que o desafio está em instalar a infraestrutura adequada no local e no prazo necessários. “A energia tem que chegar ao local. O desafio será a linha de transmissão”, afirmou Italo. A liberação de dezenas de megawatts pelas distribuidoras não ocorre de imediato, exigindo planejamento antecipado e alinhamento entre o cronograma dos projetos digitais e os investimentos na rede elétrica.

O consenso é que a energia se tornou o principal custo operacional dos data centers, e a eficiência no uso desse recurso impacta diretamente a capacidade ofertada e os preços cobrados dos clientes. A ampliação dos empreendimentos depende de um novo patamar de colaboração entre operadores, fornecedores de energia e órgãos reguladores, sob pena de atrasos e custos adicionais.

Rack de servidor com alta densidade energética e equipamentos de IA em data center
Rack operando com até 400 kW, mostrando o salto inédito na densidade computacional em data centers para IA no Brasil.

Refrigeração líquida e eficiência energética entram em cena

O aumento da densidade computacional, impulsionado pelo uso intensivo de GPUs (unidades de processamento gráfico) para IA, também está mudando o desenho interno dos data centers. Configurações de racks de 30 kVA, 60 kVA e até 100 kVA estão se tornando comuns, substituindo os padrões de 2 kVA a 10 kVA. Nessa nova realidade, a refrigeração apenas por ar já não é suficiente em muitos casos, forçando a adoção de sistemas de refrigeração líquida, como destacado pelos executivos da Ascenty.

Essa transformação afeta diretamente o índice de eficiência energética dos data centers, conhecido como PUE (Power Usage Effectiveness). Selio Italo, da Cirion, cita o patamar de 1,2 como referência competitiva, o que significa que, para cada dez unidades de energia consumidas pelos equipamentos de TI, outras duas são usadas em sistemas de suporte, como refrigeração e segurança. A busca por eficiência térmica não é apenas uma questão ambiental, mas um fator decisivo para a viabilidade econômica dos projetos.

Conectividade e integração: o papel dos campi de data centers

Para acomodar as novas cargas e integrar diferentes aplicações, a Ascenty adota o conceito de campus, reunindo múltiplos data centers interconectados em um mesmo complexo. O objetivo é reduzir a necessidade de transportar dados por longas distâncias, integrando ambientes de nuvem, IA, distribuição e produção de conteúdo. “Data center sem conectividade é uma ilha”, afirmou Silva. Essa visão é compartilhada por outros executivos do setor, que veem a integração entre data centers e operadoras de telecomunicações como fundamental para garantir disponibilidade, performance e qualidade de serviço.

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O caso da Globo, relatado por Beatriz Souza, product owner sênior, ilustra como grandes empresas estão mudando o planejamento de infraestrutura. Em vez de dimensionar tudo para os picos de audiência, a empresa passou a combinar capacidade própria com múltiplas CDNs (redes de distribuição de conteúdo), exigindo dos fornecedores padrões equivalentes de resiliência, latência e qualidade. O planejamento agora considera simultaneamente banda, processamento, energia e mão de obra qualificada, acompanhando a demanda crescente por transmissões em 4K e menor latência.

Sistema de refrigeração líquida em data center com tubulações conectadas aos servidores
Refrigeração líquida adotada para manter eficiência energética em racks de alta densidade nos data centers brasileiros.

O contra-argumento: há tempo para adaptação?

Se por um lado o consenso entre operadores e fornecedores é que a pressão por energia e refrigeração é inédita, há quem argumente que o Brasil ainda dispõe de tempo e recursos para se adaptar. A capacidade de geração elétrica do país, baseada em fontes renováveis, é frequentemente citada como vantagem competitiva. No entanto, executivos como Selio Italo alertam que a questão não é apenas de geração, mas de transmissão e disponibilidade local. O descompasso entre o ritmo dos projetos digitais e a expansão da infraestrutura elétrica pode criar gargalos regionais, especialmente em polos industriais ou em áreas com crescimento acelerado da demanda.

Outro ponto de divergência é o impacto dos custos operacionais sobre o preço final dos serviços. Enquanto alguns operadores apostam na eficiência energética e em novos modelos de refrigeração para conter custos, outros reconhecem que a pressão por investimentos pode ser repassada ao cliente final, afetando a competitividade do setor.

O que ainda não se sabe: incertezas e riscos para empresas

Apesar das projeções e do consenso sobre os desafios, há incertezas relevantes para quem decide em empresas ou no setor público. Não está claro, por exemplo, se a expansão da transmissão elétrica conseguirá acompanhar o ritmo da demanda por IA nos próximos anos. Também não há dados consolidados sobre o impacto total dos novos sistemas de refrigeração nos custos operacionais, nem sobre a disponibilidade de mão de obra qualificada para operar infraestruturas cada vez mais complexas.

Para as empresas que dependem de conectividade estável, baixa latência e disponibilidade contínua de serviços digitais, o cenário exige atenção redobrada. O risco de indisponibilidade ou de aumento inesperado de custos pode comprometer operações críticas, especialmente em regiões como Manaus, onde a logística e a infraestrutura já impõem desafios adicionais.

Linha de transmissão de energia elétrica de alta tensão próxima a data center
Linha de transmissão elétrica é o principal gargalo para expansão energética dos data centers no Brasil, segundo executivos do setor.

A multiplicação da demanda energética e computacional trazida pela IA não é apenas um desafio técnico, mas um divisor de águas para quem depende de data centers no Brasil. A decisão de onde e como hospedar aplicações, processar dados e garantir disponibilidade passa a depender tanto da robustez da infraestrutura local quanto da capacidade de antecipar gargalos de energia, refrigeração e conectividade. Para empresas do Polo Industrial de Manaus e de outros polos regionais, a escolha do parceiro de infraestrutura deve considerar não só a escala, mas a proximidade com redes de alta disponibilidade e a integração com fornecedores que já estejam preparados para a nova era da IA.

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