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Indenizações de seguro cibernético disparam 253% e expõem fragilidade das empresas brasileiras
Entre janeiro e abril de 2026, os custos com indenizações em seguros cibernéticos cresceram 3,5 vezes mais que a arrecadação do setor, segundo a CNseg. Especialistas alertam para a baixa maturidade digital das empresas e os riscos de uma abordagem fragmentada de segurança.

O mercado de seguros cibernéticos no Brasil enfrenta uma realidade desconfortável: embora a contratação dessas apólices esteja em forte expansão, o ritmo de crescimento das indenizações pagas pelas seguradoras supera em muito o aumento das receitas do setor. Segundo dados da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), de janeiro a abril de 2026, a arrecadação do segmento cresceu 71,1% em relação ao mesmo período do ano anterior. No entanto, o volume de indenizações disparou 253,1% no mesmo intervalo, um crescimento mais de 3,5 vezes superior ao das receitas.

Essa disparidade revela uma crença confortável que muitos gestores ainda mantêm: a de que a simples contratação de um seguro cibernético seria suficiente para mitigar riscos digitais. O cenário atual mostra que essa estratégia, isoladamente, pode sair caro e não resolve o problema de fundo.
Indenizações explodem, maturidade digital estagna
O salto nas indenizações reflete, de acordo com reportagem do TI Inside baseada em dados da CNseg, a dificuldade das empresas brasileiras em controlar seus riscos digitais. A Pesquisa Setorial 2025 em Cibersegurança, Governança de Dados e Inteligência Artificial, conduzida pelo Markets Innovation & Technology Institute (MiTi), reforça esse diagnóstico: a maturidade digital média das organizações nacionais ficou em apenas 5 pontos numa escala de 0 a 10. Além disso, 42% das empresas ainda não possuem um plano estruturado de resposta a incidentes cibernéticos.
Para Nycholas Szucko, líder do Laboratório de Cibersegurança do MiTi, o problema central é a baixa capacidade de prevenção e resposta das organizações. Ele aponta que muitos executivos, inclusive de grandes empresas, não têm formação técnica suficiente para compreender, medir e priorizar investimentos em segurança digital. Isso resulta em decisões fragmentadas, que deixam brechas para ataques e ampliam a dependência de seguros como última linha de defesa.
Gestão fragmentada de riscos: o elo fraco
O consenso entre especialistas, segundo o TI Inside, é que a abordagem fragmentada da segurança da informação está no centro do problema. Szucko destaca que os riscos digitais não existem de forma isolada, mas sim interligados em uma rede que envolve cibersegurança, governança de dados, inteligência artificial, privacidade, compliance e riscos de terceiros. Quando um desses elementos falha, os demais também são afetados.

Rafael Sasso, CEO e cofundador da Verta, plataforma de governança de riscos tecnológicos, concorda e defende a necessidade de uma gestão integrada de riscos digitais. Para ele, cibersegurança, privacidade e riscos de terceiros precisam ser avaliados em conjunto para que as empresas possam reduzir sua exposição e tomar decisões mais eficientes. Sasso ressalta que diagnosticar o nível de maturidade, identificar vulnerabilidades e estimar o impacto financeiro dos riscos são etapas essenciais para definir prioridades de investimento e até mesmo avaliar a elegibilidade para contratação de seguro cibernético.
Seguro não substitui maturidade: o alerta dos especialistas
O crescimento acelerado das indenizações evidencia que muitas empresas estão usando o seguro cibernético como substituto de investimentos estruturais em segurança. Szucko alerta que “não investir em maturidade e só fazer o seguro é contar com a sorte. É como fazer um seguro de carro e sair para dirigir cego!”. A metáfora ilustra o risco de confiar apenas na transferência do risco financeiro, sem atacar as causas raiz da vulnerabilidade.
O levantamento do MiTi mostra que a maioria das empresas ainda não enxerga a interdependência entre os diversos domínios de risco digital. Isso dificulta a criação de planos de resposta abrangentes e aumenta a probabilidade de incidentes com impacto significativo, tanto operacional quanto financeiro.
O contra-argumento: seguro como alavanca de maturidade?
Há quem defenda que a contratação de seguros pode, na verdade, estimular a evolução da maturidade digital, ao exigir requisitos mínimos de proteção para a concessão da apólice. No entanto, segundo o TI Inside, essa visão ainda não se confirma nos dados do mercado brasileiro. O crescimento das indenizações, muito acima do aumento das receitas, sugere que os critérios de elegibilidade e as exigências das seguradoras ainda não estão conseguindo induzir mudanças estruturais nas práticas de segurança das empresas.
Além disso, como aponta Sasso, a falta de diagnósticos objetivos sobre o grau de exposição e as vulnerabilidades das organizações dificulta a avaliação precisa do risco e, consequentemente, a precificação adequada do seguro. Isso pode levar a um ciclo vicioso: empresas pouco maduras contratam apólices, sofrem incidentes, acionam o seguro e pressionam os custos do setor, que por sua vez repassa aumentos de prêmio sem exigir contrapartidas efetivas de melhoria.

O que ainda não se sabe: limites e incertezas
Apesar do consenso sobre a necessidade de integração entre cibersegurança, governança de dados e gestão de riscos, ainda há dúvidas relevantes não respondidas pelo mercado. Não está claro, por exemplo, até que ponto as seguradoras vão endurecer os critérios para concessão de apólices diante do aumento das indenizações. Tampouco se sabe qual será o impacto desse cenário nos custos de renovação para empresas que já possuem seguro, especialmente entre pequenas e médias organizações com baixa maturidade digital.
Outro ponto de incerteza é como as empresas do Polo Industrial de Manaus, que dependem de operações contínuas e conectividade robusta, vão reagir ao aumento dos custos de seguro e à pressão por maior maturidade digital. O risco de interrupções operacionais e danos financeiros decorrentes de incidentes cibernéticos é particularmente sensível em setores industriais e de serviços críticos, onde a indisponibilidade pode gerar perdas irreversíveis.
Implicações para empresas: custo real da baixa maturidade
Para quem decide em empresas ou órgãos públicos, o recado é claro: apostar apenas no seguro cibernético, sem investir em maturidade digital e gestão integrada de riscos, pode resultar em custos crescentes e proteção insuficiente. O aumento de 253% nas indenizações, frente a um crescimento de 71% na arrecadação, mostra que o mercado está longe do equilíbrio. Empresas que não evoluírem suas práticas de prevenção, resposta e governança digital tendem a enfrentar prêmios mais altos, exclusões de cobertura e dificuldades para renovar suas apólices nos próximos ciclos.
Em regiões como Manaus, onde a conectividade é estratégica para a indústria e o setor público, a dependência de infraestrutura digital segura e estável é ainda maior. A maturidade em cibersegurança passa a ser não só uma exigência do mercado de seguros, mas um fator crítico de continuidade operacional.

O salto nas indenizações de seguro cibernético não é apenas um dado de mercado: é um alerta para quem ainda subestima o custo real da baixa maturidade digital. Em vez de confiar apenas na transferência do risco, empresas e órgãos públicos precisam investir em diagnósticos objetivos, integração de práticas de segurança e infraestrutura confiável para reduzir sua exposição e garantir continuidade. No cenário atual, a diferença entre pagar mais caro pelo seguro ou fortalecer a operação começa na escolha da base tecnológica e na capacidade de resposta a incidentes digitais.
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