Engenharia Local em Manaus · análise
Lightera anuncia expansão da produção de fibras ópticas no Brasil para atender demanda de data centers e IA
Lightera amplia capacidade fabril no Brasil, mirando o crescimento de data centers, inteligência artificial e nuvem. Nova produção de cabos rollable ribbon de alta densidade começa a operar a partir de 2028.

A crença de que a infraestrutura óptica instalada hoje é suficiente para suportar o avanço dos data centers, da inteligência artificial (IA) e dos serviços em nuvem no Brasil está sendo colocada à prova. A Lightera, empresa global de soluções ópticas, anunciou um novo ciclo de investimentos para ampliar sua capacidade de produção de fibras e cabos ópticos no país, de acordo com reportagem do Telesíntese. O movimento é impulsionado por uma demanda crescente e compromissos de compra de longo prazo, especialmente de setores que dependem de alta densidade de conexões e transmissão de dados em larga escala.

Nova onda de investimentos mira data centers e IA
O anúncio da Lightera faz parte de um plano global que inclui também Estados Unidos, Japão e Índia, e responde ao aumento da procura por infraestrutura para data centers, aplicações de inteligência artificial e serviços em nuvem. Segundo a CEO Holly Hulse, citada pelo Telesíntese, “a IA está transformando fundamentalmente a infraestrutura de comunicações do mundo e impulsionando exigências sem precedentes de densidade, desempenho e escala de fibra”.
No Brasil, a nova capacidade fabril entrará em operação de forma gradual a partir do final de 2028. O plano abrange a fabricação de fibras ópticas e cabos rollable ribbon de alta densidade, tecnologia que permite acomodar um número maior de fibras em cabos de menor diâmetro. Essa solução é especialmente relevante para redes que exigem elevada densidade de conexões, como interligações entre data centers e redes metropolitanas de telecomunicações.
Rollable ribbon: densidade e eficiência para redes críticas
O destaque da expansão está nos cabos rollable ribbon, capazes de reunir até 13.824 fibras individuais, conforme detalhado pela Lightera ao Telesíntese. Essa tecnologia permite maior capacidade de transmissão e melhor aproveitamento do espaço físico nos dutos, um fator crítico para ambientes onde a expansão física é limitada ou onerosa.
Desde 2023, a produção nacional desses cabos já é realidade, após investimento superior a R$ 30 milhões anunciado pela então Furukawa Electric LatAm. A linha de produção local permitiu a oferta de soluções com alta concentração de fibras para aplicações em data centers e redes de telecomunicações. Com a reorganização global da Furukawa Electric, a operação brasileira passou a integrar a Lightera, que agora reúne os negócios de soluções de comunicação da Furukawa Electric no Japão, da OFS e da Furukawa Electric LatAm.
Além dos cabos rollable ribbon, a Lightera também está investindo em conectores, soluções de conectividade de alta densidade, fibras multicore (MCF) e hollow-core (HCF), tecnologias para redes submarinas, equipamentos de emenda por fusão e pesquisa e desenvolvimento. Algumas dessas tecnologias já foram testadas no Brasil, como a fibra hollow-core em ambiente de data center, em parceria com Scala Data Centers e Nokia, em uma conexão de 800 Gbps.

O que muda para empresas e setor público
Para empresas e órgãos públicos que dependem de conectividade robusta, a expansão da produção local de fibras ópticas e cabos de alta densidade representa uma mudança relevante. A oferta nacional reduz riscos de gargalos logísticos e pode acelerar projetos de expansão de redes, especialmente em regiões como Manaus, onde a infraestrutura de transporte pode ser um fator limitante.
O uso de cabos com maior densidade permite ampliar a capacidade de transmissão sem a necessidade de novas obras civis, o que reduz custos e minimiza o impacto operacional. Para data centers, provedores de nuvem e operações críticas do setor público, a disponibilidade de cabos rollable ribbon de alta densidade pode ser determinante para suportar crescimento de tráfego, novas aplicações de IA e requisitos de baixa latência.
O investimento também sinaliza um alinhamento do Brasil com tendências globais de infraestrutura digital. A presença de produção local de fibras multicore e hollow-core, por exemplo, abre caminho para adoção futura dessas tecnologias em redes metropolitanas e interligação de data centers, áreas em que a demanda por largura de banda e eficiência energética só tende a crescer.
Contra-argumentos e incertezas do mercado
Apesar do otimismo da Lightera, o anúncio deixa pontos em aberto. Segundo o Telesíntese, a empresa não detalhou se a expansão envolverá ampliação das linhas existentes, instalação de novos equipamentos ou construção de capacidade industrial adicional. Essa indefinição pode gerar dúvidas sobre o impacto real no curto prazo, especialmente para projetos que exigem previsibilidade de fornecimento.
Outro ponto de atenção é o ritmo de adoção das novas tecnologias pelo mercado brasileiro. Embora a produção local de cabos rollable ribbon e testes com fibras de última geração já estejam em curso, a incorporação em larga escala depende de fatores como atualização de redes legadas, disponibilidade de mão de obra qualificada e políticas de incentivo à modernização da infraestrutura.
Há ainda o desafio de garantir que a expansão fabril se traduza em preços competitivos e prazos de entrega reduzidos para os clientes finais, especialmente em regiões afastadas dos grandes centros industriais. Para empresas do Polo Industrial de Manaus e órgãos públicos da região Norte, a logística continua sendo um fator de risco, mesmo com a produção nacionalizada.

O que ainda não se sabe e próximos passos
Até o momento, as informações sobre a ampliação da Lightera no Brasil vêm exclusivamente do Telesíntese, que cita posicionamentos oficiais da empresa. Não há, por enquanto, dados consolidados de outros veículos ou órgãos reguladores sobre o impacto esperado em termos de volume de produção, geração de empregos ou participação de mercado.
Também não está claro como a produção local de fibras multicore e hollow-core será incorporada às redes comerciais, nem quais operadoras ou provedores já firmaram compromissos de compra de longo prazo. O sucesso da expansão dependerá da capacidade da Lightera de converter inovação tecnológica em soluções acessíveis e adaptadas à realidade das redes brasileiras.
Para quem decide sobre infraestrutura de TI e conectividade em empresas ou no setor público, a principal incerteza é o timing: a nova capacidade só começa a operar a partir de 2028, o que exige planejamento antecipado para projetos que dependem de alta densidade óptica. Até lá, a pressão por capacidade e eficiência continuará desafiando gestores a buscar alternativas para garantir disponibilidade e desempenho nas redes críticas.
Implicações para operações em Manaus e decisão de infraestrutura
O anúncio da Lightera reforça a necessidade de revisão das estratégias de conectividade em empresas e órgãos públicos, especialmente em regiões como Manaus, onde a limitação física de dutos e a distância dos grandes centros tornam a densidade óptica um fator estratégico. A possibilidade de contar com cabos rollable ribbon nacionais pode facilitar a expansão de data centers locais, interligação de filiais e adoção de aplicações de IA que exigem alta largura de banda e baixa latência.
Para o Polo Industrial de Manaus, a produção local reduz a dependência de importações e pode mitigar riscos de atrasos em projetos críticos. No entanto, a ausência de detalhes sobre a escala e o cronograma da expansão exige cautela: gestores devem acompanhar de perto os desdobramentos e avaliar alternativas para garantir a resiliência das redes até que a nova capacidade esteja disponível.

Em síntese, a expansão da Lightera aponta para um cenário em que a infraestrutura óptica deixa de ser apenas um componente de suporte e passa a ser um diferencial competitivo para empresas e setor público. O desafio será transformar a promessa de inovação em disponibilidade real, especialmente em regiões que já enfrentam gargalos logísticos e pressão crescente por desempenho.
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