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ONS prepara corte automático de geração solar remota para evitar blecautes e desafia operação das empresas
Operador Nacional do Sistema Elétrico testa mecanismo que poderá desconectar até 3 GW de miniusinas solares em situações críticas, diante do crescimento da geração distribuída. Medida impacta empresas que dependem de energia solar e exige novas estratégias de gestão de risco.

O avanço acelerado da energia solar distribuída no Brasil, especialmente por meio de miniusinas e painéis em telhados, levou o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a anunciar um novo mecanismo de proteção para a rede. O objetivo é evitar blecautes em momentos de excesso de geração, que já se tornaram um risco real em períodos de baixo consumo. A medida, que envolve o corte automático de até 3 gigawatts (GW) de geração solar remota, está em fase de testes e pode ser expandida nacionalmente a partir de 2027, segundo detalharam o Brazil Journal e o Brasil 247.

Excesso de geração solar pressiona a rede elétrica
A popularização das placas solares nos últimos anos resultou em um crescimento expressivo da capacidade instalada de geração distribuída. O Brazil Journal destaca que o Brasil superou 51 GW em potência instalada de energia solar em telhados e miniusinas, com o ONS estimando ainda outros 14 GW não cadastrados oficialmente. Esse volume, que equivale à capacidade de uma Itaipu, atinge o pico de produção geralmente no início da tarde, quando a demanda pode ser baixa, sobrecarregando a rede elétrica.
O ONS já adota diariamente o chamado curtailment, paradas forçadas de parques eólicos e solares de grande porte, para equilibrar o sistema. Mais recentemente, também passou a cortar a geração de pequenas hidrelétricas e plantas de biomassa ligadas à rede de distribuição, segundo o Brazil Journal. O problema central, em consenso entre as fontes, é que a geração e o consumo precisam estar sempre em equilíbrio para evitar quedas de frequência e apagões.
O novo mecanismo: corte automático de miniusinas solares
Para enfrentar o risco crescente de colapso, o ONS desenvolve o Esquema Regional de Alívio de Geração (ERAG), que permitirá cortar automaticamente a produção de miniusinas solares remotas em momentos críticos. De acordo com o Brasil 247, o piloto do sistema deve ser testado até o fim de 2026, envolvendo inicialmente uma distribuidora ainda não definida. Caso os resultados sejam positivos, a implantação nacional poderá ocorrer em 2027.
O diretor de planejamento do ONS, Alexandre Zucarato, explicou que o corte seria acionado apenas quando todas as outras medidas manuais já tivessem sido esgotadas. Ele afirmou: “É uma coisa para ser usada pontualmente, em um curtíssimo instante de tempo, como um sistema de proteção… Naquele instante não cabe mais energia no sistema, tudo que podia ser feito do ponto de vista manual foi feito, e vai ter um sistema automático que vai dar conta.”
O ERAG funcionará de modo semelhante ao já existente Esquema Regional de Alívio de Carga (ERAC), que desliga automaticamente o fornecimento de energia em áreas pré-selecionadas para preservar a estabilidade do sistema. No caso do ERAG, a lógica é desconectar a geração, não o consumo, em uma “escadinha” de cortes conforme a necessidade, atingindo prioritariamente as maiores miniusinas e as regiões com maior concentração dessas instalações.

Impactos para empresas e o mercado de energia solar
O crescimento da geração solar distribuída trouxe desafios inéditos para o setor elétrico brasileiro. Segundo o Brasil 247, pequenas usinas, conhecidas como fazendas solares, que produzem eletricidade para empresas de energia solar por assinatura, estão entre as principais afetadas. Nomes como Órigo Energia e Cemig SIM atuam nesse segmento e podem ser impactados diretamente pela medida.
O controle centralizado da produção se tornou mais difícil, já que a energia gerada por pequenas usinas e painéis em telhados não pode ser administrada pelo ONS em tempo real. O excesso de energia, em vez de ser um benefício, passou a representar um risco de instabilidade, podendo causar alterações na frequência do sistema e até comprometer o fornecimento para consumidores finais.
O Brazil Journal ressalta que, em datas de baixa demanda, como feriados e fins de semana, o risco de blecautes aumenta, levando o ONS a adotar planos emergenciais de corte. Um especialista ouvido pela publicação sintetizou o dilema: o ONS está “redistribuindo seus impactos, mas alguém vai precisar, em algum momento, buscar uma solução.”
Consenso e divergências entre as fontes
Ambas as fontes concordam que o mecanismo de corte automático é uma resposta necessária ao crescimento descontrolado da geração solar distribuída. O volume de energia produzida, especialmente em horários de baixa demanda, ultrapassou a capacidade de absorção da rede, tornando inevitável a adoção de medidas de proteção.
No entanto, há nuances nas informações sobre o cronograma e a abrangência. O Brazil Journal aponta que o mecanismo deve ser implementado até o final do ano em uma versão piloto, enquanto o Brasil 247 fala em testes até o fim de 2026 e possível expansão em 2027. A diferença pode decorrer de ajustes nos planos do ONS ou da atualização das informações em eventos distintos. Ambos concordam que a medida será inicialmente restrita e dependerá dos resultados do piloto para ser ampliada.
Outro ponto de consenso é que o corte automático será acionado apenas como último recurso, após o esgotamento de todas as alternativas manuais de controle. O papel das distribuidoras também é destacado: elas serão responsáveis por implementar os cortes, conforme orientação do ONS.

O que muda para empresas e gestores de infraestrutura
Para empresas que dependem de energia solar, seja por meio de fazendas solares ou contratos de geração distribuída, o novo cenário exige uma reavaliação dos riscos operacionais. A possibilidade de cortes automáticos, ainda que pontuais, pode afetar a previsibilidade do fornecimento, impactando desde custos até a continuidade de operações críticas.
Gestores de TI, facilities e compras precisam considerar que, em situações de excesso de geração, a energia solar contratada pode ser desconectada sem aviso prévio, especialmente nos horários de menor consumo. Isso implica a necessidade de estratégias de mitigação, como contratos híbridos, sistemas de backup e revisão de cláusulas contratuais com fornecedores de energia.
O contexto de Manaus e do Polo Industrial é especialmente sensível, dado o histórico de desafios logísticos e de infraestrutura elétrica na região. Empresas locais que investiram em geração solar para reduzir custos ou garantir autonomia energética devem acompanhar de perto a evolução do ERAG e dialogar com suas distribuidoras para entender o potencial impacto nas operações.
Perspectivas e próximos passos para a infraestrutura corporativa
A adoção do corte automático de geração solar remota pelo ONS marca uma inflexão na gestão do setor elétrico brasileiro. O desafio de equilibrar a expansão das fontes renováveis com a estabilidade da rede exige soluções técnicas e regulatórias cada vez mais sofisticadas. Para as organizações, a lição é clara: a diversificação das fontes de energia e a resiliência da infraestrutura elétrica tornam-se prioridades estratégicas diante de um cenário em que a própria geração renovável pode ser limitada para proteger o sistema.
O avanço do ERAG sinaliza que, mesmo em um ambiente de abundância energética, a gestão de risco e a capacidade de resposta rápida são diferenciais competitivos. Empresas com operações críticas, especialmente em regiões como Manaus, devem antecipar cenários de corte e investir em infraestrutura que assegure a continuidade dos serviços, independentemente das flutuações do sistema nacional.

O corte automático de miniusinas solares, longe de ser uma medida excepcional, tende a se tornar parte do cotidiano operacional do setor elétrico. Para quem depende de energia estável e previsível, a análise detalhada da infraestrutura local e das alternativas de conectividade é o próximo passo para garantir que o crescimento da geração renovável não se torne um novo fator de vulnerabilidade.
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