Pesquisa global revela que 86% das grandes organizações estão expostas a riscos de soberania digital

Soberania digital é prioridade para conselhos de empresas, aponta Capgemini. 86% das organizações têm riscos críticos em TI. Saiba o que isso muda para negócios.

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Pesquisa global revela que 86% das grandes organizações estão expostas a riscos de soberania digital

Relatório da Capgemini mostra que dependência de fornecedores estrangeiros e falta de visibilidade na cadeia de TI preocupam conselhos de empresas e órgãos públicos. Soberania digital passa a ser prioridade diante de riscos geopolíticos e ciberataques.

por Atlas Upnetix Review Team · 9 de setembro, 2026 · 8 min de leitura
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A crença de que a infraestrutura digital é um ativo sob controle das organizações está sendo desafiada por um cenário de riscos sistêmicos, dependências críticas e ameaças que vão além da tecnologia. Segundo o relatório “Digital Sovereignty: From Policy Ambition to Executive Imperative”, publicado pelo Capgemini Research Institute e divulgado pela CISO Advisor, conselhos de grandes empresas e órgãos públicos passaram a tratar a soberania digital com a mesma seriedade dedicada a cadeias de suprimentos físicas e energia. O estudo, baseado em pesquisa global com 1.300 executivos de 11 países, aponta que 93% das organizações já discutem o tema em seus conselhos, e para 44% ele figura entre as prioridades máximas da diretoria.

Executivos em reunião discutindo soberania digital em ambiente corporativo moderno e tecnológico
Pesquisa global indica que 93% das grandes organizações discutem soberania digital em seus conselhos, refletindo a importância do tema nos níveis executivos.

Dependência crítica e riscos sistêmicos: o que está em jogo

A pesquisa da Capgemini revela que a migração acelerada para nuvem e a adoção de inteligência artificial (IA) ocorreram em ritmo mais rápido do que a evolução dos mecanismos de governança e resiliência. O resultado é a formação de dependências acumuladas, muitas vezes mal compreendidas, que expõem as operações a riscos sistêmicos. O Índice de Soberania Digital, construído a partir da análise de 866 organizações, mostra que 86% delas apresentam exposição significativa a riscos relacionados à soberania digital.

Entre os principais fatores de risco apontados estão a dependência de fornecedores estrangeiros, especialmente nas áreas de hardware (62%), cibersegurança (59%) e conectividade (58%). Além disso, a concentração de fornecedores é um problema recorrente: quase 60% das organizações relataram que suas redes de fornecedores de dados são altamente concentradas, e quase metade enfrenta o mesmo cenário em nuvem e software. A dificuldade de substituição é outro ponto crítico: para 41% das organizações, trocar um fornecedor essencial pode levar de 3 a 12 meses, enquanto 36% afirmam que o processo poderia ultrapassar um ano. Um em cada dez entrevistados declarou não ter sequer um fornecedor alternativo viável.

Falta de visibilidade e substituibilidade: os gargalos ocultos

O estudo destaca ainda a falta de visibilidade na cadeia de suprimentos tecnológica. Apenas 14% das organizações afirmaram ter visão completa de ponta a ponta sobre suas dependências tecnológicas, o que dificulta a avaliação de riscos e a resposta a eventuais interrupções. Charles-Pierre Astolfi, diretor de informações do Instituto Nacional de Informação Geográfica e Florestal da França, sintetiza o desafio: a soberania digital é, fundamentalmente, sobre a capacidade de substituir tecnologias críticas quando necessário.

Nicolas Gaudilliere, executivo da Capgemini que liderou o estudo, reforçou à Reuters que o ponto central não é apenas quem fornece a tecnologia, mas se as organizações têm condições de mudar de fornecedor quando as circunstâncias exigem. Essa perspectiva desloca o debate do nacionalismo tecnológico para a questão prática da substituibilidade e da resiliência operacional.

Data center moderno com servidores e equipamentos de hardware tecnológico
62% das organizações dependem criticamente de fornecedores estrangeiros de hardware, aumentando a exposição a riscos sistêmicos na infraestrutura digital.

O mito da autossuficiência e a busca por interdependência resiliente

Apesar da exposição generalizada aos riscos, o relatório indica que a maioria das organizações (59%) reconhece que a soberania digital plena, entendida como total controle sobre todas as camadas de infraestrutura e dados, não é um objetivo realista. Em vez disso, prevalece a abordagem da “interdependência resiliente”, que prioriza a proteção de operações críticas, o controle de ativos digitais essenciais (como dados proprietários e modelos de IA) e a redução da dependência de um único fornecedor.

Dois terços dos executivos entrevistados definem soberania digital nesses termos. Para Gaudilliere, o desafio não é perseguir a autossuficiência digital total, mas sim fazer escolhas claras e estratégicas sobre onde o controle é indispensável. O principal motivador para as iniciativas de soberania digital, citado por 80% dos respondentes, é a necessidade de resiliência operacional diante da volatilidade geopolítica e de possíveis interrupções.

Quem discorda: limites e contrapontos à urgência da soberania digital

O relatório da Capgemini, segundo a CISO Advisor, não apresenta divergências explícitas entre os executivos entrevistados sobre a importância da soberania digital, mas identifica um consenso de que a busca por autossuficiência total é impraticável. O próprio estudo aponta que a maioria das organizações não considera viável controlar todas as camadas da infraestrutura digital, seja por questões de custo, complexidade ou escala tecnológica. O contra-argumento mais frequente é que a interdependência global de fornecedores é inevitável em um cenário de inovação acelerada, e que o esforço deve ser direcionado para garantir alternativas e flexibilidade, em vez de tentar isolar-se completamente.

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Por outro lado, o relatório não detalha casos em que a dependência de fornecedores estrangeiros tenha levado a falhas catastróficas recentes, nem traz exemplos de organizações que conseguiram migrar com sucesso para modelos mais autônomos. Essa ausência de dados concretos sobre incidentes ou soluções bem-sucedidas sugere que, embora o risco seja amplamente reconhecido, ainda há incerteza sobre a melhor forma de enfrentá-lo.

Diagrama corporativo mostrando visibilidade limitada e tempos de substituição na cadeia de suprimentos tecnológica
Apenas 14% das organizações têm visão completa da cadeia tecnológica, e substituição de fornecedores críticos pode levar mais de um ano para 36% das empresas.

O que ainda não se sabe: lacunas e riscos para empresas brasileiras

O levantamento da Capgemini é global e não detalha recortes específicos para o Brasil ou para mercados regionais como Manaus. Isso deixa em aberto questões relevantes para empresas do Polo Industrial e órgãos públicos locais: qual o grau de exposição real à dependência de fornecedores estrangeiros em setores críticos? Como a falta de visibilidade na cadeia de suprimentos de TI impacta a tomada de decisão em ambientes industriais e governamentais? E, sobretudo, qual a capacidade de resposta diante de interrupções ou restrições geopolíticas que afetem conectividade, hardware ou serviços de nuvem?

Outro ponto em aberto é a efetividade das estratégias de interdependência resiliente em ambientes com infraestrutura limitada ou pouca oferta de fornecedores alternativos. No contexto brasileiro, onde a concentração de provedores e a dependência de tecnologias importadas são históricas, o desafio de construir alternativas viáveis pode ser ainda maior do que nos mercados avaliados pelo estudo.

Implicações práticas: o que muda para quem decide em TI e operações

Para gestores de TI, diretores e decisores públicos, a principal consequência do cenário revelado pelo relatório da Capgemini é a necessidade de mapear com rigor as dependências tecnológicas e estabelecer planos de contingência realistas. A ilusão de controle total precisa dar lugar a uma gestão ativa de riscos, que envolva avaliação periódica da cadeia de fornecedores, negociação de contratos que prevejam substituição e testes de resiliência operacional. A falta de visibilidade sobre as camadas críticas de infraestrutura, apontada por 86% das organizações como fator de risco, implica que o tempo de resposta a choques externos pode ser muito superior ao tolerável para operações industriais, serviços essenciais ou ambientes governamentais.

No caso de empresas do Polo Industrial de Manaus, onde cadeias produtivas dependem de conectividade estável e acesso contínuo a dados e sistemas, a exposição a riscos de soberania digital pode se traduzir em paradas de linha, atrasos logísticos e perda de competitividade. A busca por alternativas locais ou regionais de infraestrutura digital, bem como a diversificação de fornecedores, emerge como prioridade para mitigar impactos e garantir continuidade operacional.

Executivo sênior analisando dados e modelos de IA em ambiente corporativo moderno
A estratégia atual das organizações prioriza interdependência resiliente e proteção de ativos digitais essenciais, reconhecendo a impossibilidade da soberania digital plena.

O relatório da Capgemini, ao evidenciar que a maioria das organizações ainda não tem visibilidade completa sobre suas dependências tecnológicas e que a substituição de fornecedores críticos pode levar mais de um ano, deixa claro que a resiliência digital não é um projeto pontual, mas um processo contínuo. Para empresas e órgãos públicos em Manaus e no Brasil, o próximo passo é transformar o mapeamento de riscos e a construção de alternativas em parte integrante da estratégia de infraestrutura, elevando o debate sobre soberania digital do discurso à prática operacional.

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